Declaração Gera Tensão: PM Xanana Recua e Pede Desculpa à Guiné-Bissau

Imajem : Primeiro-Ministro (PM) de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão

SAP News TL – O Primeiro-Ministro (PM) de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão, pediu desculpa ao povo e ao Governo da Guiné-Bissau depois de declarações suas terem sido consideradas ofensivas, na sequência do uso da expressão “Estado falhado”.

“Peço desculpa ao governo de transição da Guiné-Bissau. Eu e o Presidente da República (José Ramos-Horta) já decidimos não enviar a missão para a Guiné-Bissau; fomos nós que cancelámos, porque eles disseram que Timor-Leste não vale nada e que, ainda assim, iria ajudá-los. Eu não posso falar de crise, porque não é isso; eu ofendi-os.”

“Ora, a CPLP é agora presidida por Timor-Leste até julho de 2026. Os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e os seus ministros virão a Timor-Leste.”

Recorde-se ainda que

A declaração de Kay Rala Xanana Gusmão classificando a Guiné-Bissau como “Estado falhado” gerou forte tensão na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, dividindo opiniões entre indignação oficial do governo guineense e reconhecimento interno das persistentes fragilidades políticas.

O Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão afirmou que a Guiné-Bissau não é um Estado frágil, mas sim um Estado falhado. Por esse motivo, Timor-Leste assume novamente a Presidência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) com o tema “Consolidar o Estado de Direito Democrático” para o período 2026–2027, com o objetivo de apoiar o reforço da democracia e dos direitos humanos.

Durante o encontro semanal entre o Presidente da RepúblicaJosé Ramos-Horta, e o Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão, foi feita uma análise sobre a assunção antecipada da Presidência da CPLP por Timor-Leste, após o golpe de Estado na Guiné-Bissau.

O chefe do Governo timorense explicou: “Há um problema político na Guiné-Bissau. Após as eleições do ano passado, surgiu um golpe de Estado. A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), em África, tentou ajudar, mas não conseguiu. A Guiné-Bissau assumia a Presidência da CPLP, mas retirou-se e entregou-a a nós. Vamos assumir por cerca de um ano e meio. Por isso, a CPLP pediu o envio de uma comissão para ajudar a resolver o problema político na Guiné-Bissau.”

“Depois de 40 anos a governarem-se, em 2014 fomos ajudar a montar todo o sistema eleitoral, incluindo a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e o Secretariado Técnico da Administração Eleitoral (STAE), para que pudessem realizar as primeiras eleições democráticas na Guiné-Bissau. Mas depois houve novamente golpe militar”, afirmou o Primeiro-Ministro em Díli, a 12/02/2026.

Xanana Gusmão acrescentou: “Com este novo golpe de Estado, já não falamos de Estado frágil, mas de Estado falhado. Em Moçambique também há problemas políticos e em Angola também existem dificuldades. Quando a Guiné-Bissau assumiu a presidência, escolheu como tema da CPLP e Soberania Alimentar. O nosso tema é Consolidar o Estado de Direito Democrático. Esta questão torna-se um grande desafio para a CPLP.”

Xanana sublinhou ainda que Timor-Leste, como cofundador do G7+, tem um papel importante na análise dos Estados frágeis e tem a obrigação de ajudar a Guiné-Bissau a praticar a democracia e os direitos humanos no mundo.

Timor-Leste é cofundador do G7+, que acompanha Estados frágeis. Agora a Guiné-Bissau tornou-se um Estado falhado. Ficamos satisfeitos por muitos países africanos terem mudado para sistemas democráticos, mas agora também temos o dever de ajudar a Guiné-Bissau no caminho da democracia e dos direitos humanos”, afirmou.

Relacionado com esta declaração diplomática, o Governo da República da Guiné-Bissau, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e Comunidades, João Bernardo Vieira, expressou profunda indignação pelas declarações do Primeiro-Ministro de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão, que classificou a Guiné-Bissau como “Estado falhado”.

“As recentes declarações sobre a Guiné-Bissau revelam falta de dignidade, postura política e posição moral adequadas para avaliar a realidade institucional do nosso Estado. Tanto Xanana Gusmão como José Ramos-Horta têm um histórico de polémicas públicas que enfraquecem a autoridade com que pretendem pronunciar-se sobre a governação de outros países”, cita o comunicado de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, de 12/02/2026.

O Ministério acrescentou: “Esta é uma oportunidade para recordar ao Sr. Primeiro-Ministro Xanana Gusmão que a sua carreira política inclui episódios amplamente divulgados que suscitaram questões sobre a sua conduta, especialmente durante um período em que muitos combatentes timorenses enfrentavam, na linha da frente, as consequências diretas do conflito que devastou Timor-Leste.” Lamentação pelas declarações do PM Xanana

“Da mesma forma, o Presidente Ramos-Horta tem sido frequentemente envolvido em debates públicos, cujas posições e comportamentos levantaram dúvidas sobre a sua estabilidade e consistência política. A combinação desses fatores dificulta compreender como figuras com esse perfil podem assumir responsabilidades de liderança numa organização com o peso institucional da CPLP.” – ataque dirigido ao Presidente Ramos-Horta.

João Bernardo Vieira declarou: “A Guiné-Bissau não aceita, nem aceitará, qualquer tentativa de humilhação pública, estigmatização política ou desqualificação institucional, independentemente da sua origem, especialmente por parte de um Estado-membro da CPLP cujo próprio percurso nem sempre se baseia de forma consistente nos princípios fundamentais da democracia.”

Relativamente ao comunicado do Governo guineense, houve também reações diversas entre cidadãos, muitos dos quais reconhecem a realidade que ocorre no país (golpe de Estado ou golpe militar).

Arlindo Timóteo Filipe afirmou: “Não vale a pena esconder a cabeça. Xanana Gusmão disse a verdade. Estamos a enfrentar um projeto de Estado que já falhou. Pronto. É preciso restabelecer a ordem constitucional.”

Carlos Ussumane Bangura triste ao ver jovens atacarem as figuras de José Ramos-Horta e Xanana Gusmão, líderes de qualidade reconhecida e projeção mundial.

“É muito triste ver jovens que dizem ter educação, mas agem como marionetas. Atacam figuras de reconhecimento internacional por causa de uma opinião sobre a situação caricata e vergonhosa que o país enfrenta nos últimos anos.”

Ussumane acrescentou que as recentes ações do ministro mostram apenas vontade de demonstrar serviço. Segundo ele, o ministro teve muita sorte ao ser nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros no “Palácio Novo Ditador”, substituindo aqueles que sempre lutaram juntos para instalar uma ditadura na Guiné-Bissau.

“Na verdade, poderia haver um militar com melhor percurso para ocupar o cargo e defender melhor os interesses golpistas. Quem ataca todos por causa de um golpe vergonhoso não terá um futuro promissor”, sublinhou.

Mendes de Carvalho destacou que a indignação institucional surge sempre mais rapidamente do que a autocrítica. Quando alguém diz em voz alta aquilo que todos sabem internamente e externamente, a resposta não é discutir a realidade, mas emitir comunicados oficiais para atacar quem tem coragem de falar.

“Xanana Gusmão pode ser uma figura controversa, mas teve a coragem de dizer aquilo que muitos diplomatas preferem apenas sussurrar. A Guiné-Bissau permaneceu durante décadas em instabilidade política, com golpes sucessivos e instituições frágeis.”

Chamar a isso “Estado falhado” dói porque desmonta o discurso confortável da diplomacia. Contudo, esse rótulo já aparece há muito tempo em relatórios internacionais, não sendo apenas resultado de indignação teatral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau.

“No fundo, o problema não é Xanana ter falado. O problema é o ministro ter de admitir, mesmo contra vontade, que a verdade dói mais do que qualquer declaração. Quem diz a verdade não merece castigo, merece ser ouvido.”

Paulo Varela sublinhou também que o Estado da Guiné-Bissau tem o direito de se defender e rejeitar classificações ou adjetivos que considere ofensivos à honra nacional. Contudo, “devemos concordar que as notícias que chegam sobre a governação do país, o nível de sucesso do Estado e o crescimento do desenvolvimento ao longo de 50 anos de independência são preocupantes”.

“Por isso, quando não se concorda que o país precisa de ajuda por falhas evidentes e se continua apenas a discursar, isso torna-se ainda mais preocupante. Além das falhas, persiste a negação.”

Muitos argumentos já foram ouvidos e concorda-se com todos os que podem estar na origem das dificuldades enfrentadas no caminho para a estabilidade. Contudo, os problemas precisam de ser trabalhados e enfrentados diretamente.

“É um processo, é verdade, mas é preciso admitir que o problema existe e dar-lhe um nome. O líder timorense chamou-lhe ‘falhanço’. Que nome dá a Guiné-Bissau ao seu problema? Não vale dizer que é apenas problema dos guineenses. Essa teoria já não é atual nem forte no princípio da globalização.” – concordando com a declaração de Xanana Gusmão.

Djagra Jaquité escreveu: “Não têm um pingo de vergonha nessas vossas caras largas. Todos vocês juntos, nem ao calcanhar do Sr. Xanana Gusmão chegam.”

Por outro lado, o Conselho Nacional de Transição (CNT) classificou as recentes declarações do primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, de um “delírio de uma mente em decadência”, considerando-as não apenas um erro diplomático, mas também uma ofensa à soberania da Guiné-Bissau.

A reação foi tornada pública esta sexta-feira, através de uma conferência de imprensa realizada em Bissau, um dia depois de Xanana Gusmão ter afirmado que o golpe de Estado de novembro na Guiné-Bissau demonstra que o país é um “Estado falhado”, defendendo que a comunidade internacional deve ajudar no fortalecimento da democracia e dos direitos humanos.

O porta-voz do CNT, Fernando Vaz, respondeu de uma forma dura esta posição do governo timorense, dizendo que, “a idade não trouxe sabedoria” ao líder timorense que as suas palavras representam.

Vaz considera ainda de insulto à Guiné-Bissau as declarações do Primeiro-ministro de Timor leste.

Segundo Fernando Vaz, “a pretensão de Timor-Leste em assumir a presidência da CPLP não é um sinal de união, mas sim o anúncio de um funeral moral para a organização”. Citou Rádio Sol Mansi. Bissau, 13/02/2026

O Conselho Nacional de Transição afirma que, a Guiné-Bissau é um Estado soberano, forjado na luta de libertação nacional e não aceita ser diminuído, por quem confunde a sorte politica com mérito pessoal.

Entretanto, o Presidente de Cabo Verde José Maria Neves acredita que diplomacia e trabalho de mediação ajudam a encontrar o melhor caminho para solucionar crises como a da Guiné-Bissau, incluindo no diferendo com a CPLP.

José Maria Neves fez esta afirmação em declarações aos jornalistas à margem dos trabalhos da 39.ª cimeira da União Africana, em Adis Abeba (14/02/2026), e falando de um encontro bilateral com o seu homólogo angolano, João Lourenço, durante o qual abordou vários temas da CPLP, incluindo a situação da Guiné-Bissau, após o golpe de Estado de novembro de 2025.

“Há todo um trabalho que de mediação que está a ser feito pela CEDEAO”, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, e em que a CPLP quer participar, disse o Presidente de Cabo Verde, manifestando-se convicto de que será possível “encetar o melhor caminho” para a Guiné-Bissau. Citou Ajénsia Lusa

Uma missão de alto nível da CPLP, cuja presidência foi retirada à Guiné-Bissau após o golpe de Estado militar, tendo passado para Timor-Leste, deveria ir a Bissau na próxima semana, mas Dili anunciou que a tinha cancelado.

Contudo, o governo de transição da Guiné-Bissau anunciou depois ter sido sua a iniciativa de cancelamento da missão da CPLP, por não reconhecer legitimidade à presidência de Timor-Leste na comunidade de países lusófonos.

Questionado se há um fosso irreparável entre a Guiné-Bissau e a CPLP, José Maria Neves defendeu que “não há nada irreparável” e que com diálogo tudo é possível, mas também deixou a mensagem de que “é importante que a diplomacia não se faça na praça pública”.

No decorrer da cimeira, o Presidente de Angola referiu-se às mudanças inconstitucionalidade de governo, referindo Madagáscar e Guiné-Bissau” num discurso em que afirmou que falar da necessidade “do restabelecimento da ordem constitucional após a tomada do poder por meios inconstitucionais” não quer dizer “que ela fica restabelecida desde que os autores do golpe de Estado realizem eleições e se façam eleger”.

O Presidente de Cabo Verde, instado a comentar e dizer se concorda com a posição de João Lourenço, respondeu apenas que “o Presidente de Angola disse tudo”.

Falar de soluções negociadas para os conflitos, armados e outros, em África foi também tema num encontro com o secretário-geral das Nações Unidas, adiantou João Maria Neves.

Fontes : SAPNews, Rádio Sol Mansi & Lusa

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